Mudanças climáticas: observatório internacional inicia actividades no Mindelo


Um observatório internacional vocacionado para determinar a relação entre as mudanças climáticas e as interacções existentes entre a atmosfera e os oceanos tropicais começou formalmente a funcionar ontem, na cidade do Mindelo, em São Vicente, passando a disponibilizar informações atmosféricas de carácter científico, cuja recolha já decorre desde Outubro do ano passado.

O centro, cuja inauguração foi presidida pela ministra do Ambiente e da Agricultura, Madalena Neves, vai monitorar e medir as mudanças químicas, biológicas e físicas que ocorrem na composição dos oceanos tropicais e da sua atmosfera, colmatando o vazio de conhecimentos existentes em relação a essas zonas do globo em comparação, por exemplo, com os pólos terrestres.


O observatório foi financiado pelo
Conselho para a Pesquisa Ambiental (NERC) e pelo Programa de Estudo da Superfície e da Baixa Atmosfera Oceânicas (SOLAS), da Grã Bretanha, contando também com o suporte financeiro do Instituto Leibniz de Ciências Marinhas (IFM-Geomar), da Alemanha, e do Observatório Tropical Atmosférico do Leste e Norte Atlântico (TENATSO).

A dimensão científica e social do projecto foi destacada pelo director do Departamento de Ciências e Inovação do NERC, Philip Newton, que também enfatizou a importância do observatório para a rede mundial de monitorização das mudanças climáticas.


“Há vinte anos, a medição das emissões de dióxido de carbono efectuada através de prolongadas observações no Hawai permitiram-nos constatar importantes mudanças na composição da atmosfera, o que ajudou a definir e aplicar importantes políticas nacionais e internacionais”, referiu aquele cientista, perspectivando que os dados a serem recolhidos no observatório do Mindelo vão “aumentar grandemente a janela de conhecimentos” actualmente existentes, com “grandes benefícios não só para o continente africano como, também, para a Grã Bretanha e o resto do mundo”.


De acordo com Philip Newton, o aumento dos níveis de metano, óxido nítrico e halocarbonatos, em conjunto, “contribui quase tanto como o dióxido de carbono para o aquecimento global do planeta, mas esses gazes sobrevivem menos tempo na atmosfera.

Daí, na perspectiva do cientista, ser necessário conhecer, “não só o seu grau de permanência na atmosfera como, igualmente, o da sua produção e concentração”, explicou, observações para as quais o observatório do Mindelo se reveste da maior importância.


Ainda segundo as explicações avançadas por Philip Newton, a atmosfera por cima dos oceanos tropicais, que cobrem cerca de um terço da superfície terrestre, contém altíssimos níveis de oxidante atmosférico (hidróxido radical) que age como um agente de limpeza, eliminando gazes nocivos como o metano e o óxido nítrico.


Na opinião daquele cientista, trata-se de fenómenos que é necessário estudar, por haver a convicção de que as informações recolhidas serão de “grande utilidade” para se entender melhor as causas do aquecimento global do planeta e das mudanças climáticas.


Também a cientista Lucy Carpenter, da Universidade de York (Inglaterra), deposita grandes esperanças no observatório do Mindelo, na medida em que, segundo adiantou, é “absolutamente necessário aumentar os conhecimentos até agora existentes” sobre os oceanos tropicais e a sua atmosfera.


O início formal do funcionamento do observatório do Mindelo marcou a abertura de um workshop internacional sobre o estudo da interacção entre a atmosfera e os oceanos nos trópicos, que conta com a participação de dezenas de cientistas da Europa, África e Estados Unidos.