Reunião do Ipcc em Paris - Veredicto sobre o clima em redacção final


Até sexta-feira, cientistas do Painel para as Alterações Climáticas ultimam o seu veredicto sobre o que está a acontecer ao clima, para ser servido a políticos Linha a linha, palavra a palavra.


Tudo será pesado e discutido. O resumo para políticos sobre o que a ciência mundial considera que está a acontecer ao clima está a ser redigido na sede da UNESCO, em Paris, onde até sexta-feira cerca de 500 especialistas estarão a concluir a síntese a enviar para os decisores. Para este documento, serão analisados os comentários enviados pelos governos.


Apesar de fechadas a sete chaves - a sua divulgação oficial só será feita na sexta-feira -, as conclusões do quarto relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) têm vindo a ser ventiladas pela imprensa internacional, reforçando a culpa do homem em relação ao efeito de estufa.
Feito por 450 autores principais, 800 co-autores e ainda mais 2500 especialistas, na qualidade de revisores, este relatório dá conta da evolução do conhecimento científico sobre o clima. A culpa humana sobre o aumento da temperatura verificado nos últimos 50 anos passa a ser considerada "muito provável".


Esta actualização feita pelos cientistas torna as previsões mais precisas desde o relatório de 2001, considerando que a temperatura média global deverá subir entre 2 a 4,5 graus até ao fim do século, em relação à era pré-industrial.


Mais ondas de calor, inundações, secas ou alterações dos padrões climáticos habituais são algumas das consequências apontadas pelos cientistas.


Quanto à subida do nível do mar, os cenários apontam para que esta seja menos radical do que antes se apontava e a corrente marítima do Golfo - que aquece parte do hemisfério Norte - não vai ser interrompida durante este século.
Estas previsões são contestadas por alguns activistas, que dizem que o IPCC está a ser demasiado cauteloso. E há cientistas que consideram que os dados sobre a subida do nível do mar não estão actualizados, por não incluírem os recentes degelos na Gronelândia e Antárctida, noticiou a AP.


Mas o IPCC é, por natureza, cauteloso, já que recebe os contributos de centenas de cientistas, alguns deles cépticos. Além disso, tem de ser aprovado por unanimidade, o que inclui o voto dos EUA e dos países produtores de petróleo.
O aumento dos níveis de confiança das previsões é uma das principais questões deste relatório. Porque, como disse à AFP Christian Brodhag, um delegado francês presente no encontro, as alterações climáticas já são uma realidade e a "dúvida tem sido um álibi da inacção". Pelo que "a luta contra o problema já não assenta no princípio da precaução mas sim no princípio da prevenção".


"Nunca como agora houve tanto apetite global" por informação fiável sobre as alterações climáticas, disse o presidente do painel, Rajendra Pachauri, citado pela AP.
"Esperamos que o relatório convença as pessoas de que as alterações climáticas são reais e que temos responsabilidades sobre grande parte desse fenómeno, pelo que temos mesmo de proceder a mudanças na forma como vivemos", disse Kenneth Denman, um dos autores do documento do IPCC.


Criado em 1988 pela Organização Meteorológica Mundial e o Programa das Nações Unidas para o Ambiente, o IPCC tenta fazer a ponte entre o conhecimento científico e os decisores políticos. Os seus relatórios provêm de centenas de cientistas e tentam reunir o conhecimento mais vasto e mais profundo possível. Em Abril e Maio, respectivamente, este painel divulgará os relatórios sobre os impactos das alterações climáticas e sobre as formas de os mitigar.

FONTE : RTP